Armamento e Equipamento: a faca de sobrevivência (atualizado)

Publicado originalmente em 06 Jan 10

Acredito que não haja dúvidas quanto a isto: uma boa faca é a principal ferramenta de sobrevivência. Na verdade, não é necessariamente uma faca, mas um instrumento de corte que se adapte ao meio. Na selva amazônica se usa o terçado, no Canadá é o machado etc. Mas de maneira geral, se usa uma faca.

Para os aeronavegantes, as facas tem algumas características que devem ser respeitadas para melhor se adaptarem e não acabarem atrapalhando as atividades dentro dos exíguos espaços das aeronaves.

Antes disso, vou tecer algumas considerações: os fãs das facas podem até torcer o nariz mas (opinião minha) não é necessário usar uma faca que é uma verdadeira obra de arte da metalurgia. Não é raro encontrar militares de carreira que compraram sua facas (normalmente uma Mk2 da Imbel – de boa qualidade mas nenhum primor da cutelaria) durante o curso de formação e permanecerem com ela durante toda a carreira. Se for bem manutenida, quase trinta anos depois a faca vai estar feia, ralada, sem o acabamento preto fosco característico dela, mas ainda cortando e servindo bem aos seus propósitos originais. Por outro lado, numa situação extrema, a qualidade da faca (e do restante do seu equipamento) pode ser o diferencial entre o sucesso e o chafúrdio.

Voltando ao assunto, a principal característica de uma faca para tripulantes de aeronave é o tamanho reduzido. De maneira geral, ela terá em torno de 25 cm de comprimento total. A idéia é ficar presa a uma parte do corpo sem ultrapassar as articulações. Se estiver, por exemplo, presa à canela, não deverá atingir nem o joelho e nem o tornozelo.

Dentro dessa idéia, as primeiras facas desenvolvidas com este fim foram as Air Force Survival americanas, na década de 1960 e usadas até hoje. Elas foram adotadas como padrão para todas as tripulações das forças armadas americanas e, apenas após o ano de 2005 começaram a ser substituídas. Elas são uma adaptação da lendária Ka-Bar, apenas um pouco menores e com o serrilhado na parte superior da lâmina. Notem também que a parte posterior do punho também é mais rombuda, podendo ser utilizada como martelo. Na guarda também existem dois furos (não dá para ver na foto) que facilitam a amarração da faca para usá-la como uma lança, por exemplo.

Randall Model 15 (Airman)

Outro modelo é a Randall Modelo 15 (Airman). As facas da Randall são um excelente exemplo das “obras de arte da metalurgia” aos quais me referi acima. São praticamente artesanais, muito caras, feitas com materiais de primeira qualidade. Notem, porém, que além do tamanho reduzido, não apresentam outras funcionalidades desejáveis, como o martelo e o serrilhado.

Nos últimos anos surgiu o conceito das facas ASEK (Aircrew Survival and Egress Knife) ou faca para escape e sobrevivência da tripulação. O US Army Aeromedical Research Laboratory definiu alguns critérios para este tipo de faca:

  • comprimento de 10,25 pol (26 cm), com lâmina de 5 pol (13 cm);
  • poder ser usada como martelo para quebrar o plexiglass do pára-brisa de uma aeronave;
  • Ontario ASEK System

  • ter uma lâmina capaz de cortar o alumínio aeronáutico das fuselagens das aeronaves;
  • poder ser usada como chave-de-fenda;
  • dispor de um afiador na própria bainha;
  • dispor de um dispositivo para cortar cintos de segurança (J-knife ou hook-knife)
  • o material do punho deve ser um isolante elétrico.

Notem que nem o serrilhado e nem os orifícios para amarração estão nos requisitos da faca ASEK.

Já existem vários modelos, mas os dois mais conhecidos são a Ontario ASEK e a Gerber LMF II ASEK. A Ontario é um pouco mais antiga e foi a primeira faca a ser aprovada para substituir a Air Force Survival knife. Porém, em 2006, surgiu a Gerber (tenho uma dessa!). Nesta época, o punho com isolamento elétrico passou a ser mandatório (antes era desejável) nos requisitos da faca ASEK. A Gerber tinha o punho isolado e a Ontario não.

Gerber LMF II ASEK

Hoje a Ontario já resolveu este problema, mas eu não sei qual faca está adotada como padrão nos EUA (A Ontario foi escolhida como a faca-padrão para as tripulações do Exército Americano e a Gerber deixou de ser vendida com o seu kit ASEK). Ambas cumprem todos os requisitos. Uma diferença que pode ser notada na Gerber é que o final do punho tem uma ponta, priorizando a função de quebrar o plexiglass em lugar do martelo. Este é bem menor, localizado na parte superior do punho.

Outra coisa que podemos ver é que as facas mais antigas possuem uma bainha comum de couro, para serem usadas presas ao cinto. Esta porém não é a posição mais comum (ninguém pilota com um cinto de equipamentos). As facas mais recentes dispõe de tiras para prender a faca à perna e a bainha, além de poder ser presa ao cinto, pode também ser atrelada aos equipamentos com o padrão MOLLE.

Imbel Caçador

A Imbel fabrica uma faca (chamada de Imbel Caçador) praticamente idêntica à Air Force Survival knife – assim como a Mk2 da Imbel é idêntica à Ka-Bar americana. Eu também tenho uma dessa Caçador, que está enferrujando abandonada na casa dos meus pais. A Imbel não explorou a faca como sendo voltada para a aviação e, em nenhum lugar, ela é citada como adequada para os tripulantes de aeronave, embora seja copiada de uma faca com esta finalidade. Com certeza, seria uma solução boa, barata e nacional para as nossas forças armadas, embora não atenda a todos os requisitos mais recentes do USAARL.

O Frag 01/4180, de 09 Jul 10, Mais um modelo de faca:

ESEE-5

ESEE-5 S.E.R.E

A marca Escuela de Supervivência, Escape and Evasion (ESEE), antiga Randall Adventure and Training (RAT), tem uma grande know-how em cursos de sobrevivência na Amazônia peruana, ministrando cursos inclusive para as forças armadas daquele país e da Colômbia. A empresa fabrica um série de facas voltadas para a sobrevivência.

A ESEE-5 (foto) não incorpora as características das facas ASEK, como as descritas acima. Por outro lado, foi desenvolvida visando um emprego em situações de sobrevivência e evasão, especificamente pelo curso de SERE da USAF. Vale a pena dar uma olhada.

A cutelaria Ontario – a mesma da ASEK System, que já citei acima – também fabrica as facas desenvolvidas pela ESEE, em aço D2 semi-inoxidável (as facas da ESEE são de aço-carbono 1095). O preço é um pouco mais acessível e podemos notar pequenas diferenças no design. A equivalente à ESEE-5 é a Ontario RAT-5.

Depois que perdi a minha Gerber no acidente, comprei um ESEE RC-3 MIL. É praticamente uma ESEE-5, porém uma pouco menor, com uma lâmina de três polegadas.

ESEE RC-3 MIL

ESEE RC-3 MIL

Um comentário sobre “Armamento e Equipamento: a faca de sobrevivência (atualizado)

      • Caro PFF é para mim uma honra ter e manter um diálogo com pessoa de mente aberta, um Militar,que se preocupa em ouvir poiniões de leigos como eu – digo eu que não tive o privilégio de servir a pátria)que quando fui me alistar, fui dispensado. Para mim uma trajédia, pois servir a Pátria é e sempre será o meu grande objetivo, objetivo este que me acompanha em tudo que se relaciona ao Exercito coturno, cinto de transporte de equipamentos etc. espero que algum dia algo nas leis mude para que eu possa ter o meu objetivo de vida um dia cumprido. Caro PFF obrigado pela atenção e um forte ABRAÇO!Brasil acima de TUDO!

  1. Uma boa faca é fabricada pela tradicional cutelaria espanhola AITOR – Aceros de Hispania. Falo da faca Botero. Fabricada em aço inoxidável, com punho em alumínio revestido material epóxi preto, comprimento total de 240 mm e peso de 230 g tem bom corte, boa ponta e ainda um pequeno serrilhado.

    Sua bainha em couro rígido tem uma pequena prasilha que permite fixar a faca ao coturno (talvez daí o nome botero – isso é elocubração). Essa faca foi usada em 1994 no 4º BAvEx, por ordem do então comandante Ten Cel Pavanello, que viu a faca em uso por um dos pilotos e gostou do resultado.

    Ninguém espere fazer dela um terçado mas presa ao corpo pode ser muito útil tanto em sobrevivência como no seu uso como uma arma branca escondida em outras situações, como uma captura pelo inimigo.

    Comento agora um detalhe que nada tem a ver com a faca em si, mas com o uso da mesma, que é o local de porte; considero interessantes duas posições: a já citada presa ao coturno, com fácil acesso apenas levantando-se a parte da perna do macacão ou a posição consagrada pela Marinha, presa em um pequeno bolso na lateral do macacão, fechado por um fecho rápido (fecho-eclair) de nylon, mas com dentes grandes para evitar ao máximo que o mesmo engasgue na hora da abertura, que pode ser um momento de emergência como o abandono de uma aeronave que afunde.

  2. Prezado PFF, boa tarde;

    Acompanho a cutelaria nos últimos 15 anos, nunca vi em revista ou qualquer matéria
    sobre facas de salvamneto semelhante.
    Parabéns pela matéria no site, serve para instrução, quanto as marcas citadas
    acredito foram tecnicamente para exemplificar no texto , como também pela sua experiência e conhecimento.
    Abraços.
    Eugênio

  3. Pingback: Oswaldo Bustani Jr

  4. Caro,

    “Depois que perdi a minha Gerber no acidente, comprei um ESEE RC-3 MIL.”

    Vou lá escavar o sítio arqueológico do teu acidente e então achar a Gerber. Vai valer uma fortuna, rapaz!!!!

    Quanto às facas, gostei muito do artigo. Agora, falta comparar com canivetes, especialmente os automáticos ou ainda de abertura com uma só mão, pois são bastante fáceis de usar e assim podem ser acomodados de maneira bastante racional a bordo. Eu sempre levo meu Bocker SpeedLock, automático, e tem outros que podem ser bastante adequados.

    Há que se levar em conta, obviamente, que nenhum canivete jamais terá a robustez de uma lamina fixa de uma faca, mas entre um canivete e nada, prefiro o canivete.

    Alias, eu sou a favor daquela máxima: “existem dois tipos de homens: os que portam canivetes, e os que dependem dos que portam”.

    Abraços a todos e bons voos.

    • Um outro ditado americano diz que você pode sobreviver sem uma lâmina grande, mas nunca sem uma pequena.

      De fato, uma lâmina pequena, seja da faca ou do canivete, vai quebrar muito mais galhos e podem ser carregados para qualquer lugar sem causar transtornos.

  5. Ontem li na internet uma dica bastante interessante e até bastante óbvia:

    É interessante que uma faca de sobrevivência, após limpa, seja mantida com óleo vegetal (óleo de cozinha comum), ao invés de outro óleo lubrificante, específico para manutenção.

    Claro que ele não será tão eficiente, mas vai fazer diferença quando tiver que preparar um alimento com a faca. A última coisa que você precisa quando está perdido é uma intoxicação.

  6. Fala meu amigo Piffer,como estão as coisas? será que você teria como me informar sobre quem fornece o modelo de faca Ontario Asek aqui no Brasil?
    Estou trabalhando no Centro Integrado de Operações Aéreas de MT e o pessoal aqui gostou desse modelo.
    Agradeço a sua atenção meu amigo.
    Fronteira!!!!
    Medeiros.

  7. Olá!

    Trabalho na F1 Ferramentas, http://WWW.f1ferramentas.com.br, distribuidora exclusiva das Facas Wotan (homologadas e utilizadas pelo Bope do Rio de Janeiro).

    O preço medo unitário, hoje, é de R$ 320,00.

    Fico a disposição para maiores informações.

    Att,

    Silvana Azevedo
    Depto. Comercial
    F1 Ferramentas
    PABX SP: 55-11-3805-6199
    SilvanaAzevedo@f1ferramentas.com.br http://www.F1Ferramentas.com.br

    Rua Dr. Renato Paes de Barros, 696, cj 21 – Itaim Bibi – São Paulo – S.P. – Cep 04530-001 – Brasil.

  8. Olá!

    Somente para complementar:

    O Modelo 3K, da Wotan, foi desenvolvido após uma somatória de especificações técnicas internacionais, do exército Brasileiro, das polícias dos estados brasileiros,
    e, principalmente, do Bope do Rio de Janeiro. Após a necessidade de alta escala de facas específicas para o Bope, mediante os projetos vigente do Estado do Rio de Janeiro.

    Houve testes interessantes como abrir furos em paredes, latarias de carro, utilizar como “degrau” para subir paredes, quebrar todos os tipos de vidros (carro, casas), etc.

    Fico a disposição para maiores informações.

    Att,

    Silvana Azevedo
    Depto. Comercial
    F1 Ferramentas
    PABX SP: 55-11-3805-6199
    SilvanaAzevedo@f1ferramentas.com.br http://www.F1Ferramentas.com.br

    Rua Dr. Renato Paes de Barros, 696, cj 21 – Itaim Bibi – São Paulo – S.P. – Cep 04530-001 – Brasil.

  9. Olá Marcus!

    Trabalho na F1 Ferramentas, http://WWW.f1ferramentas.com.br, distribuidora exclusiva das Facas Wotan / Corneta (homologadas e utilizadas pelo Bope do Rio de Janeiro).
    (O preço médio, unitário, do modelo 3K/Bope, hoje, é de R$ 320,00).

    Fico a disposição para maiores informações.

    Abraço,

    José Alipio de Barros – josealipio@f1ferramentas.com.br

    Obs: Falar com:

    Silvana Azevedo
    Depto. Comercial
    F1 Ferramentas
    PABX SP: 55-11-3805-6199
    SilvanaAzevedo@f1ferramentas.com.br

    http://www.F1Ferramentas.com.br

    Rua Dr. Renato Paes de Barros, 696, cj 21 – Itaim Bibi – São Paulo – S.P. – Cep 04530-001 – Brasil.

  10. Tchê, na “M” qualquer uma serve, mas o kit da Ontario ASEK System com faca e “corta tirantes” parece-me mais apropriado para o abandono inicial da aeronave. Claro que deve estar a mão…

  11. Olá.
    Nos anos setenta a Marinha disponibilizava (carga) para seus pilotos a faca Imbel, agora chamada caçador. Copia da Air Foprce Survivel Knife e que, na verdade, nada ficava devendo a americana. A Marinha as recebia direto da Imbel e eram gravadas com o escudo da Marinha na direita e da Imbel na esquerda. Na epoca os macacões eram americanos (US Navy) e vinham com um bolso na face externa da perna direita. Eram costurados até a metade e fechado com velcro a outra metade. Sistema muito bom, firme de portar e facilimo de abrir.
    Um forte abraço.
    Muniz

  12. Ainda hoje a Marinha usa essa faca (eu vim saber depois que já havia escrito esse artigo).

    Os macacões da MB ainda tem o bolso lateral na coxa. Eu não sei se são de fábrica ou se são costurados por aqui – o tecido parece um pouco diferente.

  13. Estou procurando uma boa ferramenta multi-uso. Alguém me dá uma sugestão? É para usar em casa mesmo; nada especializado.

    Gostei dos modelos da SOG. E das clássicas da Leatherman, é claro.

  14. Uma faca nova da Gerber_Gear  : http://www.gerbergear.com/Tactical/Knives/Prodigy-Knife_22-41121
    Ela é um pouco menor que a LMF II, que eu citei no artigo, acho que vale a pena dar uma olhada.
     

  15. Já tive uma faca caçador em inox, na época emprestei, e como sabe, hoje choro, pela perda.Tenho uma faca da nautica em inox, muito boa. E para segurança tenho uma guepardo(police).

  16. Pingback: Nunca voe sem sua faca — Voo Tático

  17. Olá, eu tive por muito tempo uma Imbel Caçador que comprei nos anos 90 e infelizmente foi roubada junto com outras de minha coleção em um assalto havido em minha residencia. Vc teria interesse em vender a sua faca caçador. Grato.

  18. Vale a pena olhar essa faca do Fabio Souza: http://facasmilitares.com/buschcraftatrox.html
    É uma faca brasileira, artesanal, com um tamanho muito bom para ser empregado em aeronaves.

  19. Chegou a faca semana passada..

    Ela vem de fábrica com um fio medianamente afiado, acredito que para trabalhos menos delicados..

    O material é de primeira, tanto o cabo quanto a lâmina.

    É faca para ir literalmente pra briga, esta é uma que verdadeiramente não vai deixar ninguém na mão. 

    O que eu não gostei foi de ter vindo apenas uma bainha rígida do mesmo material do cabo da faca…

    Entendo que o EB não tem por padrão usar equipamentos com suporte MOLLE, mas uma bainha de cordura, com suportes ia ajudar a reduzir o peso e aumentar o nro de opções de onde prender a faca, com o prejuízo da segurança senão prender a faça com um cordão.

    De qualquer maneira, vem junto um adaptador de metal que da para prender a bainha que eu consegui deixar bem firme no MOLLE do meu colete.

    Se quiserem depois eu mando uma foto do arranjo que eu fiz.

    O teste de campo vai ter que esperar até 14/12.

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